Dirigindo pela N222 no Vale do Douro: a melhor estrada de Portugal, sem mentira
A N222 entre Régua e Pinhão já foi eleita a melhor estrada para dirigir no mundo. Um morador local conta como é a viagem de verdade, onde parar e o detalhe que ninguém menciona.
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Uma estrada raramente vira destaque em uma região vinícola, mas a N222 é diferente. Ela acompanha o Douro de Peso da Régua até Pinhão e, há cerca de dez anos, ficou famosa na internet como "a melhor estrada para dirigir do mundo". Os moradores acharam graça, mas concordaram um pouco. É mesmo incrível: uma fita de asfalto serpenteando pelo rio, com vinhedos em socalcos acima e a água deslizando abaixo, curva após curva, cada uma revelando uma nova paisagem. Já dirigi por ela em todas as estações e nunca me cansou. Aqui, o que esperar e o detalhe que os blogs de viagem não contam.
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O que é a N222 e por que ela é tão famosa?

A N222 é uma estrada regional que acompanha o Douro, e seu trecho mais famoso percorre cerca de 27 quilômetros entre Peso da Régua e Pinhão. Em 2015, um estudo encomendado pela locadora de veículos Avis elegeu esse segmento como a melhor estrada para dirigir no mundo, e o título pegou. A imprensa britânica o descreveu como 17 milhas de curvas com vistas deslumbrantes sobre o vale.
Leve o ranking com uma pitada de ceticismo, afinal, ele veio de um estudo de marketing com fórmula e até um físico envolvido, daqueles feitos para viralizar. Mas a essência da história se confirma na prática. O que torna esse trecho especial não é a velocidade, aqui não dá para correr, , e sim o diálogo constante entre a estrada e o rio: você nunca está a mais do que alguns metros da água, as vinhas em socalcos parecem te observar de cima, e as curvas são suaves o bastante para curtir, sem precisar brigar com elas.
Como é o trajeto de Régua a Pinhão na prática?

Devagar, cênica e curta. O trajeto de Régua a Pinhão leva menos de uma hora de direção pura, mas reserve meio dia, porque você vai parar várias vezes. A estrada acompanha o ritmo do rio, passando por portões de quintas, pequenas capelas e mirantes, com os muros dos vinhedos de um lado e o Douro do outro quase o tempo todo.
Não espere uma corrida de carro esportivo. Essa é uma estrada para saborear, melhor aproveitada na velocidade de uma vila, com as janelas abertas. O trânsito é tranquilo na maior parte do ano, mas nos fins de semana de verão e na época da colheita aparecem mais carros e até vans de turismo. Em alguns pontos, a pista é estreita e com desníveis acentuados, então vale mais um motorista relaxado e atento do que um ambicioso. Pare sempre que um acostamento chamar sua atenção. O grande barato da N222 é que o caminho é o destino.
Onde parar para admirar as vistas?

Em todo lugar que chamar sua atenção, mas alguns pontos se destacam: as curvas do rio em torno de Pinhão, os mirantes elevados acima da cidade e os vários acostamentos onde a estrada enquadra um trecho perfeito de socalcos. A foto clássica do vale inteiro, aquele anfiteatro de vinhas acima da água, é feita em um mirante, não enquanto se dirige.
Os melhores merecem planejamento, porque a luz muda o que você vê a cada hora. Reuni os mirantes e pontos de foto mais impressionantes, incluindo o famoso sobre Pinhão, no guia de mirantes e pontos de foto do Douro. Uma dica de quem já dirigiu por essa estrada mais vezes do que consegue contar: o trajeto no sentido leste, em direção a Pinhão, deixa as melhores curvas do rio à sua direita e o sol da tarde às suas costas, o que facilita as fotos.
Qual é o lado menos romântico de dirigir pela N222 por conta própria?

O detalhe é o vinho. Essa é a alma de uma região vinícola, as quintas ao longo da estrada existem para oferecer degustações, e alguém no carro precisa ficar sóbrio para dirigir. O limite de álcool ao volante em Portugal é baixo, então, na prática, uma pessoa vira o motorista designado e perde a maior parte da degustação, o que é estranho para um dia no Douro.
É isso que ninguém coloca no cartão-postal. A N222 é deslumbrante, e as quintas ao lado dela são o motivo de você estar ali, mas esses dois fatos se chocam no momento em que você aluga um carro. Dá para dirigir só pela paisagem e pular as degustações, ou revezar a direção e cada um aproveitar metade do vinho, mas não existe versão em que todos bebem à vontade e alguém ainda consegue guiar o carro com segurança por aquelas curvas. Explico toda a conta de dirigir por conta versus passeio guiado, incluindo quando vale mesmo a pena dirigir, em passeio ou dirigir por conta.
Vale mais a pena dirigir pela N222 ou fazer um passeio guiado?

Dirija se a estrada em si for o seu objetivo e a degustação for secundária, ou se você ficar vários dias no vale e puder aproveitar com calma. Faça um passeio se o vinho for o foco, porque assim você curte a mesma paisagem pela janela, com todas as degustações à sua disposição, e ninguém fica preso ao volante.
Para quem visita o Porto e tem só um dia, o passeio guiado é imbatível, e não é por pouco. Você percorre a N222, os motoristas sabem exatamente onde parar para as melhores fotos, e o dia já inclui duas degustações em quintas e almoço. O passeio de dia em grupo pequeno que a gente indica aqui segue pela rota mais bonita, visita a Quinta do Tedo e a Quinta do Beijo, inclui um passeio de barco rabelo de 50 minutos em Pinhão e oferece duas opções: transporte do hotel para até oito pessoas ou ponto de encontro para até 19. E, claro, todo mundo no furgão pode brindar à vontade.
Se mesmo assim você alugar um carro, dirija pela N222 pelo menos uma vez só pela emoção, depois passe a chave para outra pessoa e deguste. A estrada é incrível, e o vinho ao lado dela também. O único erro é tentar fazer as duas coisas ao mesmo tempo.